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Link - Coluna 25-12 - Tradição e Inovação

Tradição e Inovação

Tradição e inovação são elementos próprios da cultura. Inovar é tradição, desde antes mesmo desses dois conceitos serem concebidos e compreendidos. E para manter a tradição, desejo um ótimo solstício de verão a todos, que pode ser traduzido, em nosso tempo e cultura, como Feliz Natal.

Tradição e inovação

As invenções são, quase sempre, novas roupagens de coisas já conhecidas, ou ao menos parte de coisas já conhecidas. Se para Aristóteles o encantamento vem, inclusive e principalmente, pelo reconhecimento, Freud explicou o estranho como algo já conhecido, mas em contexto distinto. De um modo e outro, a inovação, mesmo em processo disruptivo, é mais uma articulação de pensamento, que o surgimento de algo completamente novo.

Foi assim com o Natal, que é a roupagem cristã da festa pagã dedicada ao deus Sol, também a Saturno, deus da Agricultura, e à deusa persa Mitra, e que marca o solstício de inverno no hemisfério norte. Em 350 d.C., o Papa São Júlio I decretou o 25 de dezembro como data oficial para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, tirando proveito de festejos já existentes. Foi a invenção de uma tradição que alcança nosso tempo.

As invenções são a marca da História, ela mesma uma invenção. O marco oficial da passagem da Pré-História para a História, a invenção da escrita, em aproximadamente 3.500 anos a.C., é prova disso. O calendário cristão, como o conhecemos, é uma invenção do século XVI e praticado a partir de 1582, graças ao papa Gregório XIII, que propôs alterações ao calendário solar já usado na época. Não por outro motivo o calendário ficou conhecido como gregoriano. A contagem dos anos é, desse modo, um ajuste realizado no século XVI.

Entre inovações e tradições, o ser humano se inscreve no mundo e escreve sua história. Em uma contemporaneidade, cujo modelo social deixou as razões religiosas e se organiza a partir da ciência, não tardará para termos novos contextos, ainda que se mantenham datas e festejos, como a cristandade fez em relação às festas pagãs. Esse pensamento reforça uma das máximas da inovação: inovação não se relaciona necessariamente com algo novo, mas com novas formas de gerar valor.

O pensamento inovador não tardou para sobrepor o bom velhinho, Papai Noel, a São Nicolau, generoso bispo e santo católico do século IV, em evidente processo de inovação sobre a tradição. Ainda que suas características contemporâneas só tenham sido apresentadas nos anos 1880, em criação gráfica do ilustrador alemão Thomas Nast, a tradição vem de há muito tempo, produto de constante transformação e fusão.

Esses fatos nos ajudam a lembrar que a tradição é uma invenção, mantida pela cultura de um povo, portanto, demarcada por um tempo histórico e um lugar. Não existiram sempre, tampouco existem em todos os lugares. A tradição de hoje foi, um dia, uma inovação, que nos alcança em função da cultura mantida e espalhada no tempo e espaço. Tradição e inovação são elementos próprios da cultura. Inovar é tradição, desde antes mesmo desses dois conceitos serem concebidos e compreendidos. E para manter a tradição, desejo um ótimo solstício de verão a todos, que pode ser traduzido, em nosso tempo e cultura, como Feliz Natal.

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