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O peso das palavras

Tema: 

O peso das palavras

 Veículo: Diário da Manhã

Número: 11.348

Página:

Caderno: Opinião Pública

Data: 26/11/2018

O peso das palavras

As palavras pesam. Pesam tipográfica, fonética, semântica e pragmaticamente, além de pesarem sobre seu emissor, a partir das expectativas que criam. Esse peso das palavras é usado constantemente na comunicação visual, no marketing, na política, na literatura e no dia-a-dia, embora neste último caso nem sempre haja consciência plena desse peso. E quando não há, o peso não é medido, resultando em mágoas, inconformidades ou mesmo em erros, pela ausência de medida interpretativa.

Na comunicação visual, o peso tipográfico possui a maior variação, podendo ser Light, ExtraLight, Thin, SemiLight; Regular, Médium, Normal, Plain e Roman; Demi, book e DemiBook; SemiBold e DemiBold; Bold; SuperBold e ExtraBold; UltraBold, Heavy, Black, Ultra e Fat, chamando a atenção do olho para aquilo que aparece distintamente no material gráfico. Outro recurso usual para distinguir o peso do tipo é o uso da cor, que tem o branco como a cor mais pesada visualmente, segundo estudos da percepção visual. Na fonética, os sons mais graves tendem a soar mais pesados que os agudos, de modo a percebermos os sons mais fechados como mais densos. Essa característica é corroborada pela amplitude da onda sonora, em sua aferição pela física.

Pela semântica, parte da linguística que estuda a vinculação das palavras com seus sentidos, as vinculações de peso se devem, essencialmente, ao sentido que cada palavra expressa. Logo, o peso varia de acordo com o enunciado apresentado, em uma relação denotativa. Na pragmática, o peso é determinado pelo contexto e entrelinhas, extrapolando a vinculação de sentido direto. Muitas vezes o modo como algo é dito ou o que está ao redor do que é dito, abrange o contexto pragmático. A ironia, por exemplo, é caso notório de desalinhamento entre o sentido semântico e o pragmático: enquanto a semântica afirma algo, a pragmática nega.

Esse peso das palavras, uma licença poética baseada na metáfora, por vezes agrava relações, principalmente no contexto pragmático da linguagem, seja no uso de palavras grafadas com letras maiúsculas em aplicativos de comunicação - significa grito -, seja o sentido que o enunciado carrega consigo, em suas costas. Nesses casos, a intenção do emissor pouco importa, visto que o objeto da comunicação não está na intenção, mas na concretude da linguagem, demarcado pelo enunciado, pela enunciação e pela capacidade interpretativa do receptor, que busca recompor a intenção do emissor, nem sempre com sucesso, a partir da capacidade de um e de outro.

Para aquém dos inflamados discursos políticos, de orientação tendenciosa, conveniente e conivente, os discursos processados no cotidiano reservam suas farpas para os dedos menos habilidosos ou mais descuidados, ferindo-os sem prévio aviso. O processo de cicatrização tende a não ser rápido, principalmente porque, nesses casos, a dor é acentuada pela constância do uso, que reabre a ferida a cada ocorrência. Para o emissor, o prejuízo recai na inabilidade do trato da língua. Para o receptor, desconfiança e mágoa tendem a ser os resultados da leitura, com duas opções de reação: a  repulsa e o afastamento ou a resiliência e a aceitação. Em redes sociais, as opções, normalmente, são não visualizar, deixar de seguir, cancelar a amizade ou bloquear do perfil, em uma gradação de distanciamento similar ao que ocorre nas relações interpessoais. Seja como for, o respeito e a consideração para com o outro sugerem uma leveza nas palavras, bom índice de sociabilidade, seja em relações diretas, seja em relações mediadas por sistemas computacionais.

Leia o artigo publicado neste link.

Coluna 26-11 - O peso das palavras

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