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Coluna 01-04 - Pequenas mentiras, grandes estragos

Pequenas mentiras, grandes estragos

Tema: Pequenas mentiras, grandes estragos

Veículo: Diário da Manhã

Número: 11472

Página: 19

Caderno: Opinião Pública

Data: 01/04/2019

A mentira tem um dia na cultura popular. Na cultura social, parece dominar o calendário inteiro. Se no dia de hoje, 1o de abril, as brincadeiras e pegadinhas fazem a alegria de muitos, no restante do ano perde o viço, tornando-se câncer social, problema grave que danifica a moral, a ética e o corpo social.

O Dia da Mentira tem origem com a implantação do calendário gregoriano na França, em 1564. Até então, o Ano Novo era comemorado em 25 de março, com festiva semana que alcançava o 1o de abril. Com a mudança do calendário, instituída pelo rei francês Carlos IX, o Ano Novo passou a ser comemorado em 1o de janeiro, com resistência de alguns súditos. Os resistentes eram chamados de tolos, justamente por manterem a comemoração em data não oficial, dando início às pegadinhas desse dia, que ficou também conhecido como Dia dos Tolos, Dia das Mentiras e Dia dos Bobos. A tradição zombeteira incluía convites para festas inexistentes e o envio de presentes despropositados. No Brasil, a data é lembrada com mentirinhas de toda ordem, principalmente em ambientes profissionais e familiares. A tradição indica que estejamos atentos a quaisquer pedidos ou notícias inesperadas, visto poderem ser, de fato, pegadinhas em referência ao dia.

No contexto social, o lastro das mentiras, que engloba as meias-verdades, extrapola o bom senso e a boa-fé, tornando-se problema que, por inércia, ignorância, estupidez, maledicência e mau-caratismo, mantém-se ativo principalmente em redes e sites sociais, em uma guerra de informação cuja finalidade política e ideológica é o maniqueísmo - a crença em lados opostos e incompatíveis. A oposição dual descaracteriza a complexidade social e humana, simplificando o mundo entre o Bem e o Mal, como se isso bastasse.

Evidentemente, a estratégia surgida no século III na filosofia cristã surtiu efeito à época, e parece ainda contabilizar ganhos, embora suas perdas sejam mais notórias e duradouras. No tempo cinza e úmido das redes, o vírus parece ter encontrado locus ideal para sua propagação, inclusive sendo assim denominado. A ação viral propaga posts virulentos pelas redes, que já possuem máquinas para ampliar os estragos.

A nova peste, presente na sociedade - e não na tecnologia -, longe de limitar-se à ingenuidade da data do primeiro de abril, viceja feroz e envenena a sociedade, com sua estratégia secular, sua cor encarnada, gosto amargo e odor visceral, que teima em fazer do ano um infindável dia de mentiras e de tolos. Os novos hospedeiros, insensíveis, parecem não enxergar o estrago que a peste provoca, tomados pelos efeitos tidos de imediato, e que podem parecer estratégicos e delirantes, não fosse o tempo e o exemplo,  que denunciam os efeitos colaterais, em náuseas, vômitos e morte do tecido social. Definitivamente, as fake news são contraindicadas, mesmo em primeiro de abril.

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