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Einstein, Incas e o tempo

Tema: Einstein, Incas e o tempo

Veículo: Diário da Manhã

Número: 11.478

Página: 18

Caderno: Opinião Pública

Data: 15/04/2019

Einstein escreveu, em carta, que a “diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”. O criador da Teoria da Relatividade referia-se ao fato de o tempo ser relativo, vinculando-o à velocidade. A noção entre os tempos, observada a sua variação, é uma ilusão na medida em que pessoas vivem tempos distintos, de modo que o que é passado para alguns poderia ser futuro para outros. Tudo isso, claro, na dimensão teórica, uma vez que todos nós viajamos a uma velocidade constante de 1,08 bilhão de km/h, exatamente a velocidade da luz, maior velocidade possível no universo. As variações são tão pequenas que passam despercebidas, em frações infinitesimais, não apresentando valor perceptível. Ainda assim, a Teoria da Relatividade coloca em questão o tempo e como o percebemos, admitindo que as noções de passado, presente e futuro são relativas, embora seja fato que esses tempos pertençam ao mesmo instante.

Para os Incas, passado, presente e futuro fazem parte de um tempo cíclico, de modo que estamos de frente para o passado e de costas para o futuro, em rodopios constantes. Para os povos ameríndios pré-colombianos, o passado é visível, logo se posiciona à nossa frente. Já o futuro, que não podemos ver, está logo atrás de nós, em um local não visível. O presente, nossa presença  no mundo, no espaço-tempo, é movido pela ação cíclica do tempo, que torna o futuro um passado.

E se o tempo a Deus pertence, parece que Ciência e Religião se alinham no espaço-tempo, de modo análogo ao alinhamento de uma teoria revolucionária da Ciência, a Física contemporânea, com o mito de uma civilização que cravou suas marcas no tempo universal, no DNA de seus descendentes e na história da civilização, indelevelmente.

Nas artes, é possível ver como o tempo se incrusta temática e objetualmente. Na música, pura temporalidade, cria ritmos infindáveis, em uma diacronia inventiva quase inimaginável, não fosse o fato de existir. Nas artes visuais, preserva-se latente em pinturas e esculturas, aflorado nos planos sequenciais, no cinema e na arte interativa. Nas cênicas, tem a dimensão da própria essência do pôr em cena, enquanto na literatura transfigura-se nas dimensões da temporalidade da leitura, da diegese e do tempo psicológico, noção utilizada por Einstein para referir-se à percepção individual do tempo.

Desde as crenças gregas em khrónos, kairós e aíôn, passando por Aka Pacha, Manqha Pacha e Alax Pacha, correspondentes a presente, passado e futuro para os Incas, guardadas as especificidades de concepção de cada civilização, até a moderna concepção temporal da Física, não personificado, tendo-o como um fenômeno objetivo e subjetivo, o tempo é condição ontológica do mundo, amalgamado no espaço e em nossas relações existenciais, filosóficas, psicológicas e sociais.

Para além de perscrutar o tempo, a Ciência ainda mantém a ideia de dobradura do espaço-tempo, apoiando-se na metáfora da folha de papel ou do tecido do espaço-tempo, tornado bidimensional. Oxalá tenhamos metáforas melhores, de um eixo quadrimensional, como a estrutura espaço-temporal se acomoda. E se a teoria estiver certa, isso já estará definido, sendo passado para uns, presente para outros e futuro para nós, olheiros de um tempo que se prolonga, no espaço diminuto de olhares perdidos, no tempo que corre a 1,08 bilhão de km/h.

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