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Inteligências na urbe

Tema: Inteligências na urbe 
Veículo: Diário da Manhã
Número: 10.722
Página: 18
Caderno: Opinião Pública
Data: 20/02/2017

Inteligências na urbe

 

O uso de figuras de linguagens é uma constante na vida moderna. Entrar na Internet (acessar a Internet), minha Internet caiu (perda da conexão à Internet), Internet das coisas (coisas conectadas à Internet) e cidades inteligentes (inteligências nas cidades), são exemplos de processos metafóricos e metonímicos que, de tanto serem usados, acabam por confundir quem os use. A confusão ocorre pela naturalização do uso, fazendo com que falantes acabem por esquecer a figura de linguagem e endereçar o significado para uma noção denotativa. O fenômeno também ocorre por transposição, quando usamos um termo que indica o sentido do outro, como, por exemplo, quando falamos mouse para nos referirmos ao cursor ou ponteiro. Mouse, aquele objeto físico que seguramos com uma mão e que sincroniza seu movimento do cursor, aquela seta (ou mão ou traço ou barra...) que existe na interface gráfica. Dada a relação de causalidade do movimento entre mouse e cursor, várias pessoas chamam de mouse o que de fato não o é, mas sua representação funcional nas telas, o cursor.

No que diz respeito a cidades inteligentes será preciso, igualmente, reconhecer o princípio metonímico de considerar o conteúdo pelo continente. A cidade, tida como conjunto de edificações e vias, não é nem pode ser, de fato, inteligente. Do mesmo modo que casas e edifícios não o são. O princípio, então, é considerar cidades inteligentes o conjunto de elementos que incluem o cidadão e suas ações, este sim merecedor, ou não, do adjetivo inteligente.

Em situação análoga, o filósofo francês Pierre Lévy construiu a ideia de uma cultura do ciberespaço, denominada cibercultura, apregoando que um novo "espaço" traria condições para reinventar uma cultura humana, de modo que o surgimento do ciberespaço seria uma oportunidade de inventar uma cultura sem as mazelas já conhecidas das sociedades modernas. Ocorre, contudo, que um espaço não tem cultura. Cultura é algo característico do humano, simplificado nas formas de ser e estar. A cultura é o conjunto de comportamentos, ações e modos de ser que caracterizam as comunidades em determinadas épocas. Deste modo, quando falamos em cultura europeia, referimo-nos ao modo dos europeus e não exatamente em como são as casas, os bosques e as cidades. Quando falamos em cultura medieval, falamos em modos de ser daquela época. De modo correlato, ao falarmos em cibercultura, falamos em modos de ser e agir no ciberespaço. O ciberespaço tem a cultura de quem o compõe. Isto, por si, coloca a perspectiva do filósofo em condição indefensável.

Voltando às cidades, ao nos referirmos a cidades inteligentes, queremos acreditar que falamos sobre cidadãos que, inteligentemente, geram um modo articulado de viver nas cidades, zelando por este tipo de sociabilidade e pelo espaço que a compõe - os espaços sociais, públicos, em última instância. Reconhecendo esse princípio ficará mais fácil compreender como cidadãos que não cuidam de sua cidade não poderão viver em uma cidade inteligente. Como atos como jogar lixo em terrenos baldios ou córregos, provocar queimadas, danificar equipamentos públicos ou desrespeitar regras de sociabilidade indicam uma baixa inteligência para a cidade como um todo.

De outro modo, como ações colaborativas, zelo com a cidade e manutenção da ética social são índices para alcançar uma cidade inteligente.

Cidades inteligentes não são conjuntos de aparelhos tecnológicos dispostos em uma cidade, mas sim sistemas de pessoas usando energia, materiais, serviços e financiamentos para alcançarem uma melhoria na qualidade de vida nas cidades. Este fluxo social recebe o adjetivo inteligente pela estratégia das pessoas ao fazerem uso da infraestrutura disponível - inclusive serviços e tecnologias. Ao reduzir o lixo nas vias públicas o cidadão reduz a possibilidade de enchentes por obstrução de bueiros e ainda amplia a possibilidade de realização de coleta seletiva do lixo - os empregos podem ser reduzidos na limpeza das ruas e ampliados na reciclagem dos resíduos urbanos. Ao usarmos as áreas de lazer cuidando do que é público, contribuímos para manutenção e ampliação destas áreas. Este mesmo pensamento vale para toda a infraestrutura e serviços oferecidos em uma cidade e seu uso estratégico dimensiona a inteligência reconhecida como da cidade. Mais que cidades inteligentes, falamos de cidadãos, pessoas inteligentes, vivendo nas cidades. E aqui já não há figura de linguagem.

 

 Artigo - Inteligencias na urbe

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