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O que vemos e o que nos olha

Tema: Tecnologias, virtualidades e uma batatinha.
Veículo: Diário da Manhã
Número: 10.771
Página: 25
Caderno: Opinião Pública
Data: 10/04/2017

 

O que vemos e o que nos olha

Quando George Orwell, em seu romance de  1984 (publicado pela primeira vez em junho de 1949), usou o termo Big Brother (grande irmão) para definir o controle exercido a partir de câmeras de monitoramento, certamente ele não profetizou a teia complexa que atualmente se constrói sobre tais sistemas. No romance, o "grande irmão" era ferramenta de controle, um panóptico do regime totalitário a perscrutar desvios, inclusive de pensamentos, dos trabalhadores, visando o pleno exercício e manutenção do controle.

Em tempos contemporâneos, os sistemas de monitoramento por câmeras, ainda que possam ser considerados primariamente para o exercício de controle, servem também a outros interesses, indo das Artes à Sociologia, da Ciência da Computação à Engenharia de Tráfego. Mesmo que a função seja o monitoramento, tais imagens se prestam a um cem número de finalidades, visto que elas se abrem não apenas para quem exerce o poder, mas também a desviantes, com interesses na compreensão, na análise ou até mesmo no simples deleite da imagem. Mídia que é, o sistema é meio, cujas finalidades dependem menos dela e mais de quem as usa. A imagem videográfica, legado do século XX, se lastreia pelas cidades, e não só nelas, com grande intimidade. As câmeras são posicionadas de todos os lados e acima, em uma visão privilegiada, quase onipresente.

Às câmeras, mais recentemente, foi adicionado um sistema de reconhecimento de padrões, como um cérebro ligado a um olho. O sistema passa a reconhecer padrões de comportamento, fluxos, direções, cores, objetos e pessoas. Do seu processamento, surgem informações diversas, parametrizadas para a segurança e para outras ações. O sistema reconhece, por exemplo, colisões, quedas de pessoas, objetos deixados em algum lugar, consegue acompanhar automóveis e pessoas pela cidade, integrando imagens de várias câmeras. Pensado como uma ferramenta voltada para a cidadania, os sistemas e as câmeras podem ajudar na agilização de soluções de trânsito, no monitoramento de idosos e crianças e na prevenção de ações terroristas, dentre as diversas possibilidades. De outro modo, podem gerar também multas por condutas indevidas em vias públicas e mesmo para finalidades de controle, a partir de identificação de pessoas.

As câmeras já são usuais em condições de baixa competência visual humana, como ocorre em ações noturnas, muito rápidas ou muito lentas. No esporte, as câmeras são imprescindíveis para decidir primeiras colocações e infrações, sendo usadas não apenas para dirimir dúvidas, mas também para compreender movimentos e transmissões para todo o planeta. Nas observações de animais de hábitos noturnos, na desaceleração de movimentos rápidos e na aceleração de movimentos lentos ou sequências sem movimento. As imagens videográficas nos olham pelas cidades, nem sempre acompanhadas pelas placas informativas de "sorria, você está sendo filmado".   

Na segurança, atualmente, o que se nota é que as imagens são usadas tanto para coibir infrações, como para punir culpados, como nos recentes casos de assassinatos do turista argentino Matias Sebástian Carena, de 23 anos, atingido por um soco no Rio de Janeiro, e do ativista paraguaio Rodrigo Quintana, baleado na cabeça dentro da sede do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA),  em Assunção. Nestes e em tantos outros casos, é inegável a relevância do sistema para a segurança, ainda que possa ser também para o controle estadista, como romanceou Orwell.

Longe de apaziguar as discussões sobre controle e segurança, os sistemas de monitoramento seguem sua escalada como uma ferramenta de auxílio de ambos os temas, provocando mudanças, inclusive de comportamento nas cidades. Ao se enxergarem sendo vistos, monitorados, os cidadãos tendem a comportamentos mais ordeiros. Em casos de infração, as imagens reduzem a possibilidade de relatos ficcionais.

As câmeras e os softwares de reconhecimento de padrões talvez não alcancem a antecipação de crimes, como ocorre no filme Minority Report, de 2002, mas talvez possam continuar tendo outras finalidades, como servir de janelas para o mundo, como a câmera usada por Raymond Dufayel, o homem de cristal, do belíssimo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, filme de 2001.

 

o que vemos e o que nos olha

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