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Po(r)ética para as cidades - capa2

Po(r)ética para as cidades

Tema: Po(r)ética para as cidades
Veículo: Diário da Manhã
Número: 10.790
Página: 19
Caderno: Opinião Pública
Data: 01/05/2017

 

Po(r)ética para as cidades

O filósofo grego Aristóteles definiu a poética como sendo uma estratégia de produção de encanto. Para ele, a poética é um modo de provocar efeitos, a partir do conhecimento e domínio estratégico das várias linguagens. Em seu texto Poética, o filósofo exemplificou a poética a partir da estratégia usada no teatro, enquanto modalidade literária. Tragédia e comédia são exemplos tidos no texto aristotélico.

Normalmente vinculada à Arte, a poética tem amplitude maior, a ponto de o próprio Aristóteles escrever sobre poética artística, identificando a arte como um campo de atuação da poética, mas não restringindo sua ação nesse campo. Seu texto fundamenta o que até hoje se estuda sobre poética, em um lastro conceitual de profundas marcas nas sociedades desde então.

É também de Aristóteles a primeira discussão que separa ética da política. Para ele, ética se vincula à ação voluntária e moral do indivíduo, enquanto a política se volta para as questões da pólis, da cidade. Ética é posicionamento individual, enquanto política é um posicionamento comunitário. A ética na política, nesse sentido, seria um posicionamento de moral individual ao se pensar e atuar em prol da cidade, como espaço comunitário, espaço social compartilhado.

Em tempos de turbulência da ética na política, ou da falta de ambos os preceitos aristotélicos no tecido social, parece nos sobrepor a necessidade de pensar a poética voltada para a pólis, para a cidade. Em Aristóteles, a cidade é o berço da civilização e a causa da associação humana. A cidade é um dos principais círculos em que o homem se move, precedendo a família, respondendo a um impulso natural. Dos círculos de relacionamento, a cidade é o responsável pela constituição da sociedade, base de bem-estar social e, consequentemente, individual. Em sendo o humano um ser social, a cidade representa a otimização da espécie, espaço ótimo para sua plenitude evolutiva.

Propor poética para as cidades alinha, desde a Grécia Antiga, embutir a ética e a política, o individual e o comunitário, na produção de encantamentos voltados para a comunidade, para a vida conjunta. Se a ética é pessoal e a política é comunitária, a poética se volta para modos de operar a cidade, suas linguagens e seu alicerce, os cidadãos, na perspectiva de o efeito ser a melhoria da qualidade de vida, da sociabilidade.

Não creio que a ausência de ética seja um problema da política, mas sim da sociedade. O problema da política é não pensar a comunidade, como deveria. A sociedade padece de falta de ética como princípio da cultura, não como princípio da política. Talvez, e apenas talvez, a poética possa ser um belo caminho para ser seguido, justamente por produzir encantamentos, por sensibilizar as pessoas por seus efeitos.

E entre feitos, efeitos e defeitos, a poética para a urbe, que reúne estratégias para cidades melhores, poderia ser alternativa para repensar as experiências de cidadania, assumindo a ética como elemento formador, inclusive da palavra. Poética, por ética nas cidades.

 

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