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Tecnologia virtualidades e uma batatinha

Tecnologia, virtualidades e uma batatinha

Tema: Tecnologias, virtualidades e uma batatinha.
Veículo: Diário da Manhã
Número: 10.777
Página: 19
Caderno: Opinião Pública
Data: 17/04/2017

 

Tecnologia, virtualidades e uma batatinha

O termo tecnologia parece ser, por vezes, escorregadio: ainda que presente em várias falas, seu sentido serpenteia entre as várias noções que o termo adquire nos contextos em que é usado. Ora ele parece se referir a um aparelho, ora a uma técnica, ora a um estado de desenvolvimento da ciência, ora nem mesmo quem fala sabe precisar que sentido queria que o termo assumisse. Provavelmente, na maior parte das vezes, o termo é usado para se referir a um aparelho, como um computador, tablet ou smartphone. Ainda que assim o seja, essa noção não encontra respaldo técnico. Aparelho usa uma tecnologia, mas não é uma. Tecnologia é um conhecimento que se lastreia em uma comunidade, após a compreensão por comprovações da ciência. Logo, um aparelho não é uma tecnologia, mas faz uso desse conhecimento, na medida em que incorpora esse conhecimento para executar sua função.

O computador usa tecnologia bluetooth, wireless ou mesmo o processamento algoritmo padrão. Esse conhecimento, e não o computador, é o que denominamos tecnologia. Ao computador damos o nome de aparelho. Usar o computador é uma habilidade técnica, e não tecnológica. Engana-se quem se diz conhecedor de tecnologia apenas por ser usuário de algum sistema operacional e seus softwares padrão, mais ainda quem faz uso de serviços online, como redes e sites sociais e se diz conhecedor da tecnologia computacional. Talvez essa breve explicação esclareça que tecnologia não é técnica, tampouco aparelho. E talvez essa breve explicação desmistifique a ingênua ideia de que os jovens conhecem muito de tecnologia, quando o correto seria dizer que sabem técnicas de uso de aplicativos computacionais. Mas quando confrontados com conhecimento tecnológico, de fato, vemos que não conseguem ultrapassar a barreira do usuário. Por analogia, é um cliente de açougue que não faz ideia de como são feitos ou mesmo a localização dos cortes, não reconhece uma carne, mas sabe comer. Distante de serem nativos digitais, a juventude ainda carece, e muito, de reconhecer a tecnologia, começando pelo uso correto do termo.

Discutir a cultura digital passa, necessariamente, pelo reconhecimento da tecnologia contemporânea, mais precisamente da computacional, identificando sua composição, lastro de desenvolvimento e, o que é mais profícuo ainda, suas aplicações. É exatamente aqui que se alinha o conceito de transferência tecnológica: na aquisição de conhecimento por uma cultura, normalmente iniciada pela comunidade científica. Fazer transferência tecnológica está longe de ser a aquisição de uma máquina, menos ainda se esgota com as técnicas de uso dessas máquinas. A transferência tecnológica se dá quando uma comunidade científica é capaz de compreender os mecanismos lógicos de um sistema, a ponto de reproduzi-los. Isso significa dizer que a transferência tecnológica se torna fato quando a comunidade que recebe essa transferência cria a competência de usar a tecnologia para o seu desenvolvimento, construindo novos aparelhos.

Virtual é outro termo cujo uso é, na maior parte das vezes, equivocado. Se para alguns o termo é um sinônimo de digital, para outros ele apenas representa uma oposição ao real, ainda que esse real não esteja bem definido. O termo virtual vem do latim virtus, e significa o que tem potência de vir a ser. Desse modo, virtual é algo que acreditamos ter força de existir, mas que de fato não existe ainda. Reconhecer que um jovem se tornará um adulto brilhante é reconhecer esse brilhantismo adulto virtualmente presente no jovem. Reconhecer uma árvore virtualmente presente em uma semente é um exercício similar. Virtual é algo que pressentimos, acreditamos, mas não vemos, não tocamos, não alcançamos com nossos sentidos. Jamais conseguirei ver uma imagem virtual. As imagens que vemos nos monitores dos computadores são digitais, mas não virtuais. Quando recebemos um pen-drive ou um DVD e somos informados que aquelas mídias contêm informações, acreditamos que elas contêm virtualmente aquelas informações, mas de fato não as vemos na mídia. Apenas quando acessamos um DVD player ou um computador temos acesso, pelos monitores, às informações contidas no DVD ou pen-drive. Quando vemos as informações elas deixam de ser virtuais e se atualizam, sendo percebidas por nós. Jamais enxergamos imagens virtuais, como muitos querem que acreditemos.

Notamos que compreender a cultura digital tem início na compreensão de elementos simples, como os termos que exploramos aqui. Longe que restringir a cultura digital ao ato de programar, o lastro da cultura se adensa e espraia, como a batatinha, que quando cresce, espalha a rama pelo chão - mas não esparrama nada.

Virtualmente a tecnologia pode mudar o mundo. Mas na prática quem muda o mundo são as pessoas, quando adquirem conhecimento e práticas capazes de provocar essa mudança.

 

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